SETOR DE AVIAÇÃO CIVIL · SISTEMA CRÍTICO DE SEGURANÇA OPERACIONAL · 2025
O sistema entregava muitos dados, mas pouca confiança
Reengenharia cognitiva da interface da Estação Meteorológica de Superfície (EMS) — transformando uma barreira informacional em extensão cognitiva para Controladores de Tráfego Aéreo.
UX RESEARCH
SISTEMAS CRÍTICOS
CARGA COGNITIVA
AVIAÇÃO CIVIL
OBSERVAÇÃO DE CAMPO
DESIGN CENTRADO NO USUÁRIO
CONTEXTO
Sistema operacional de missão crítica
USUÁRIOS PRIMÁRIOS
Controladores de
Tráfego Aéreo (CTAs)
ESCOPO
Discovery + pesquisa +
direção de redesign
MÉTODO
Imersão in loco, entrevistas, análise cognitiva
PONTO DE PARTIDA
Uma ferramenta essencial operando abaixo da confiança que o ambiente exige
A Estação Meteorológica de Superfície (EMS) é o sistema de referência meteorológica utilizado por Controladores de Tráfego Aéreo em suas operações cotidianas — velocidade e direção do vento, teto, visibilidade, pressão QNH. Dados que determinam se um pouso acontece ou não.
Ao entrar no projeto, encontrei uma contradição: a ferramenta estava disponível, mas não era confiada. Controladores mais experientes tinham o hábito consolidado de ligar para a torre para confirmar informações que deveriam estar claras no sistema. Em situações de discrepância — como um piloto reportando 40kt de vento enquanto o EMS indicava apenas 10kt — a validação cruzada por telefone virou protocolo não oficial.
"O sistema entregava muitos dados, mas pouca confiança. A sobrecarga visual tornava difícil identificar, em segundos, o que realmente importava para aquele momento da operação."
O diagnóstico central foi que a interface forçava os controladores a realizar um filtro cognitivo manual antes de qualquer decisão. Em um ambiente de alta pressão, essa sobrecarga era o principal vetor de risco — e o design, involuntariamente, estava do lado errado da segurança.
A pergunta que orientou o projeto: como redesenhar o EMS para que ele atue como extensão cognitiva do controlador — e não como mais uma fonte a ser verificada?
Interface original do EMS — densidade de dados sem hierarquia clara, dificultando a leitura rápida em situações de pressão operacional.
PESQUISA E MÉTODO
Imersão in loco - entender antes de propor
A abordagem foi fundamentada em design baseado em evidências e empatia contextual. A pesquisa combinou observação contextual, entrevistas qualitativas e análise cognitiva da interface atual — sem partir de hipóteses prontas sobre o que os controladores precisavam.

Processo de imersão e síntese — os achados de campo revelaram padrões de uso que divergiam significativamente das premissas iniciais sobre o sistema.
MISSÃO E OBJETIVOS ESTRATÉGICOS
Não uma atualização estética — uma reengenharia cognitiva
Com o diagnóstico em mãos, o projeto foi orientado por uma missão clara: realinhar o EMS ao fluxo mental real dos controladores. Não redesenhar uma tela — reformular a relação entre sistema e operador.

ACHADOS CENTRAIS
Quatro rupturas que o sistema não conseguia resolver
A consolidação dos dados de campo revelou padrões consistentes entre os participantes. Não eram queixas pontuais — eram falhas sistêmicas que se repetiam em diferentes perfis e contextos de uso.

Os achados convergiram para três hipóteses de design que orientaram a prototipagem: reduzir ruído informacional aumenta clareza e confiança; hierarquia visual eficiente permite decisões mais rápidas; exibição condicional de dados secundários elimina distração sem sacrificar acesso à informação.
DIREÇÃO DE DESIGN
Menos é mais seguro — hierarquia radical como princípio
O redesign foi estruturado a partir de um princípio claro: em ambientes de alto risco, design invisível é design eficaz. A interface ideal é aquela que o controlador não precisa pensar para usar. Cada decisão foi avaliada por uma pergunta simples: isso serve à decisão, ou apenas à consulta?

Comparativo de interfaces — antes e após a proposta de redesign centrada em hierarquia e redução de carga cognitiva.
A exibição condicional foi uma das decisões de maior impacto: fenômenos meteorológicos e alertas passariam a aparecer somente quando efetivamente relevantes para a operação corrente, eliminando ruído visual em condições normais e garantindo saliência máxima em momentos críticos.
Exibição condicional — interface limpa em condições normais e sinalização proeminente em alertas críticos, sem ruído visual intermediário.
RESULTADOS E VALIDAÇÃO
Testes em cenário real — inclusive simulações de windshear
A eficácia da proposta foi verificada em testes moderados em duas etapas, com grupos de controladores de diferentes regiões. As tarefas simulavam situações críticas reais: trocas de pista, autorizações de aproximação e detecção de alertas de windshear.

"Agora eu vejo o que preciso, quando preciso — sem ter que confirmar com ninguém."
Além das métricas objetivas, o redesign alterou a experiência emocional de usar o sistema sob pressão. Clareza, previsibilidade e percepção de controle foram os ganhos mais consistentemente relatados — indicadores que, em sistemas críticos, se traduzem diretamente em segurança operacional.
Exibição condicional — interface limpa em condições normais e sinalização proeminente em alertas críticos, sem ruído visual intermediário.
MOVIMENTOS E PRÓXIMOS PASSOS
O que mudou — e o que ainda está em construção
O projeto está em evolução. Os movimentos já perceptíveis são, em grande parte, qualitativos: a linguagem sobre o sistema mudou. A conversa com as equipes técnicas e operacionais deixou de ser sobre funcionalidades isoladas e passou a incluir fluxo, prioridade visual e experiência sob estresse.
O EMS deixou de ser tratado como um painel de dados e passou a ser discutido como ferramenta de decisão. A dependência de verificações paralelas — ligações para a torre, consultas ao ACANS como "mais confiável" — começou a ser questionada como sintoma de design, não de limitação técnica. Uma distinção relevante para as próximas fases.
Os próximos movimentos incluem prototipação funcional para validação iterativa com usuários reais, refinamento a partir de evidências observáveis e consolidação considerando os limites técnicos e normativos do sistema.
Projetar para a atenção humana é um exercício de precisão e empatia. O sucesso em UX para sistemas críticos não é quando o usuário percebe o design — é quando ele confia nele o suficiente para nem lembrar que ele existe.
MINHA ATUAÇÃO
Conduzi o projeto da imersão ao redesign — realizando a observação direta no ambiente operacional, entrevistando múltiplos perfis, mapeando fluxos e cargas cognitivas, e traduzindo os achados em direção de design. O desafio central foi equilibrar as necessidades operacionais reais dos controladores com restrições técnicas e normativas de um sistema regulado. Em sistemas críticos, cada decisão de interface tem implicações além da usabilidade — tocam diretamente em segurança humana.
UX Research
Observação in loco
Análise cognitiva
Design para sistemas críticos
Arquitetura da informação
Hierarquia visual
Testes de usabilidade
Síntese e direção estratégica